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Poesias infantis

Olavo Bilac · 1904

Índice

Leitura

O Remedio

Gravura de cabeçalho do poema O Remedio. Litografia da edição de 1904.

A Amelinha está doente,
Chora, tem febre, delira ;
Em casa, está toda gente
Afflicta, e geme, e suspira.
Chega o medico e a examina.
Tocando a fronte abrazada,
E o pulso da pequenina,
Diz alegre: « Não é nada!
« Vou lhe dar uma receita.
« Amanhã, o mais tardar,
« Já de saúde perfeita,
« Ha de sorrir e brincar. »
Vem o remedio. Amelinha
Grita, faz manha, esperneia :
« Não quero! »
O pae se avisinha,
Mostrando-lhe a colher cheia :
« Toma o remedio, querida!
« Dar-te-hei como recompensa,
« Uma boneca vestida
« De seda e rendas, immensa... »
— « Não quero! »
Chega a titia :
« Amelia é boa, não é ?
« Se fosse boa, teria
« Toda uma arca de Noé... »
— « Não quero! »
Promettem tudo :
Livros de figuras cheios,
Um vestido de velludo,
Brinquedos, jóias, passeios...
Teima Amelinha. Faz manha.
E diz o pae, já com tedio :
— « Menina! você apanha,
Se não toma este remedio ! »
E nada! a menina grita,
Sem querer obedecer.
Mas nisto, a mamãe afflicta,
Põe-se a gemer e a chorar.
Logo Amelinha, callada,
Mansa, a colher segurando,
Sem já se queixar de nada,
Vae o remedio tomando.
— « Então ? mau gosto sentiste ? »
Diz o pae... E ella, apressada :
— « Para não ver mamãe triste,
« Não sinto mau gosto em nada! »