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Poesias infantis

Olavo Bilac · 1904

Índice

Leitura

Plutão

Cemitério: cão junto a um túmulo, cruzes ao fundo. Litografia da edição de 1904. Iniciais HM à esquerda.

Negro, com os olhos em braza,
Bom, fiel e brincalhão,
Era a alegria da casa
O corajoso Plutão.
Fortissimo, agil no salto,
Era o terror dos caminhos,
E duas vezes mais alto
Do que o seu dono Carlinhos.
Jamais á casa chegára
Nem a sombra de um ladrão ;
Pois fazia medo a cara
Do destemido Plutão.
Dormia durante o dia,
Mas, quando a noite chegava,
Junto á porta se estendia,
Montando guarda ficava.
Porém Carlinhos, rolando
Com elle ás tontas no chão,
Nunca sahia chorando
Mordido pelo Plutão...
Plutão velava-lhe o somno,
Seguia-o quando acordado :
O seu pequenino dono
Era todo o seu cuidado.
Um dia cahiu doente
Carlinhos... Junto ao colchão
Vivia constantemente,
Triste e abatido, o Plutão.
Vieram muitos doutores,
Em vão. Toda a casa afflicta,
Era uma casa de dores,
Era uma casa maldita.
Morreu Carlinhos... A um canto,
Gania e ladrava o cão ;
E tinha os olhos em pranto,
Como um homem, o Plutão.
Depois, seguio o menino,
Seguio-o callado e serio ;
Quiz ter o mesmo destino :
Não sahio do cemiterio.
Foram um dia á procura
D'elle. E, esticado no chão,
Junto de uma sepultura,
Acharam morto o Plutão.