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Poesias infantis

Olavo Bilac · 1904

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Fabulas

Gravura de cabeçalho das Fábulas. Litografia da edição de 1904.

A Rã e o Touro

(FABULA DE ESOPO)

Pastava um touro enorme e forte, á beira d'agua.
Vendo-o tão grande, a rã, cheia de inveja e magoa,
Disse : « Por que razão hei-de-ser tão pequena,
Que aos outros animaes só faça nojo e pena?
Vamos ! quero ser grande ! incharei tanto, tanto,
Que, immensa, causarei ás outras rãs espanto !»
Poz-se a comer e a inchar. E ás rãs interrogava :
«Já vos pareço um touro ?» E inchava, inchava, inchava!...
Mas em vão! Tanto inchou que, num tremendo estouro,
Rebentou e morreu, sem ficar como o touro.
Essa tola ambição da rã que quer ser forte
Muitos homens conduz ao desespero e á morte.
Gente pobre, invejando a gente que é mais rica,
Quer como ella gastar, e inda mais pobre fica :
— Gasta tudo que tem, o que não tem consome,
E, por querer ter mais, vem a morrer de fome.

O Soldado e a Trombeta

(FABULA DE ESOPO)

Um velho soldado
Um dia por terra
A espada atirou;
Da guerra cançado,
Com nojo da guerra,
As armas quebrou.
Entre ellas estava
Trombeta esquecida:
Era ella que no ar
Os toques soltava,
E á lucta renhida
Tocava a avançar.
E disse : « Meu dono,
E' justo que a espada
Tu quebres assim !
Mas que, no abandono,
Fique eu socegada !
Não quebres a mim!
Cantei tão somente...
Não sejas ingrato
Commigo também!
Eu sou innocente :
Não piso, não mato,
Não firo a ninguém...
Nas horas da lucta
Alegre ficavas,
Ouvindo o meu som.
Attende-me! escuta!
Se então me estimavas,
Agora sê bom! »
E o velho guerreiro
Lhe disse : « Maldita!
Prepara-te! sús!
Teu som zombeteiro
As gentes excita,
A guerra as conduz! »
Terrivel, irado,
Jogou-a por terra,
Sem dó a quebrou...
E o velho soldado,
Cançado da guerra
Por fim repousou.

O Leão e o Camondongo

(FABULA DE ESOPO)

Um camondongo humilde e pobre
Foi um dia cair nas garras de um leão.
E esse animal possante e nobre
Não o matou por compaixão.
Ora, tempos depois, passeando descuidoso,
Numa armadilha o leão caiu:
Urrou de raiva e dôr, estorceu-se furioso....
Com todo o seu vigor as cordas não partiu.
Então, o mesmo fraco e pequenino rato
Chegou : viu a afflicção do robusto animal,
E, não querendo ser ingrato,
Tanto as cordas roeu, que as partiu afinal...
Vede bem: um favor, feito aos que estão soffrendo,
Póde sempre trazer em paga outro favor.
E o mais forte de nós, do orgulho se esquecendo,
Deve os fracos tratar com caridade e amor.

O Lobo e o Cão

(FABULA DE ESOPO)

Encontraram-se na estrada
Um cão e um lobo. E este disse :
« Que sorte amaldiçoada!
Feliz seria, se um dia
Como te vejo me visse.
Andas gordo e bem tratado.
Vendes saúde e alegria:
Ando triste e arrepiado,
Sem ter onde cair morto!
Gozas de todo o conforto
E estás cada vez mais moço;
E eu, para matar a fome,
Nem acho ás vezes um osso!
Esta vida me consome...
Dize-me tu, companheiro :
Onde achas tanto dinheiro? »
Disse-lhe o cão :
« Lobo amigo!
Serás feliz, se quizeres
Deixar tudo e vir commigo;
Vives assim porque queres...
Terás comida á vontade,
Terás affecto e carinho,
Mimos e felicidade,
Na boa casa em que vivo! »
Foram-se os dois. Em caminho,
Disse o lobo, interessado :
« Que é isto? Por que motivo
Tens o pescoço esfolado?»
— « É que, ás vezes, amarrado
Me deixam durante o dia...»
« Amarrado ? Adeus, amigo!
(Disse o lobo) Não te sigo!
Muito bem me parecia
Que era demais a riqueza...
Adeus! inveja não sinto :
Quero viver como vivo!
Deixa-me, com a pobreza!
— Antes livre, mas faminto,
Do que gordo, mas captivo! »