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Poesias infantis

Olavo Bilac · 1904

Índice

Leitura

Os mezes

Crianças dançam com bandeirolas dos meses; título «Os Mezes — Canto e Dansa». Litografia de página inteira da edição de 1904. Iniciais HM embaixo à direita.

Côro das creanças :

Venham os mezes desfilando!
Cante cada um por sua vez !
Dansemos todos, escutando
O que nos conta cada mez...

Janeiro

Janeiro :

Eu sou o mez primeiro,
O calido Janeiro !
Ouvi minha canção !
Dou festas e presentes...
E os corações contentes,
Quando appareço, estão.
Quando appareço, os sinos
Começam crystallinos,
A erguer o alegre som.
Trago para as creanças
Affagos, esperanças,
E festas de Anno-Bom.
Mas, se a alegria espalho,
Desejo que o trabalho
Vos possa reunir :
Mezes, eu vos saúdo !
Eu sou o mez do estudo :
As aulas vão se abrir!

Côro das creanças :

Saia da roda o mez primeiro !
Prosiga a dansa jovial!
E entre na roda Fevereiro,
Que é o bello mez do Carnaval!

Fevereiro

Fevereiro :

Fevereiro, muitas vezes,
No meio dos doze mezes,
É o mez mais jovial.
É o mez da mascarada,
Da alegria desvairada,
Das festas do Carnaval!
Saem a rua os diabos,
De longos, vermelhos rabos,
E caras de horrorisar,
E o velho, que, dando o braço
Ao dominó, e ao palhaço,
Diz graçolas, a pular.
Brincae ! por estes trez dias
De festas e de alegrias,
Os vossos livros deixae!
Para alegrar vossas almas,
Batei aos mascaras palmas,
— Depois... aos livros voltae !

Côro das creanças :

Saia da roda Fevereiro,
Pois já passou a sua vez !
Entre na roda o mez terceiro !
Venha outro mez! Venha outro mez!

Março

Março :

Março, que se adianta,
Traz a Semana Santa,
Em que Jesus morreu :
Foi pela Humanidade
Que elle, todo bondade,
Viveu e padeceu.
Ha luto na cidade...
Quem se humilhar não ha-de,
Pensando na Paixão?
Na egreja os órgãos cantam,
E as almas se levantam,
Cheias de gratidão.
Orae também, creanças!
E, suspendendo as danças,
Lembrae-vos de Jesus,
Que, martyr voluntario,
Morreu sobre o Calvario,
Nos braços de uma cruz.

Côro das creanças :

Março morreu! Prosiga a dansa!
Prosiga a ronda juvenil !
E vamos ver que mez avança:
É o mez de Abril! É o mez de Abril!

Abril

Abril :

Eu sou Abril! O seio
Tenho cheiroso, e cheio
De fructos, e de flores.
Abril o outono encerra :
Já pesam sobre a terra
Os ultimos calores.
Foi n'este mez que, um dia,
O odio da tyrannia
Um martyr consagrou.
Saudae o Tiradentes,
E os sonhos resplendentes
Que o seu Ideal sonhou !
Quiz ver a Patria amada
Do jugo libertada,
Digna do seu amor...
— Vós, decorae-lhe a historia,
Honrando-lhe a memoria!
Saudae o Sonhador!

Côro das creanças :

Um novo passo agora ensaia :
Dansemos todos outra vez !
Entre na roda o mez de Maio,
Saia da roda o quarto mez.

Maio

Maio :

Dae-me vivas! Dae-me palmas!
Exultem todas as almas,
Cheias de um vivo fulgor!
Todo o Brasil, congregado,
Saude o mez consagrado
Da Liberdade e do Amor!
A grande raça opprimida
Abri as portas da vida,
As portas da Redempção !
Mudei em risos as dores,
Mudei em tufos de flores
Os ferros da escravidão!
Treze de Maio! A desgraça
Findou de toda uma raça!
— Aos beijos, dando-se as mãos
Os brasileiros se uniram,
E o captiveiro aboliram,
Ficando todos irmãos.

Côro das creanças :

Maio já deu o seu recado...
Prosiga, em dansas, a funcção!
Entre na roda o mez amado,
O alegre mez de S. João!

Junho

Junho :

Em chammas alviçareiras,
Ardem, crepitam fogueiras...
— E os balões de S. João
Vão luzir, entre as neblinas,
Como estrellas pequeninas,
Entre as outras, na amplidão.
Não ha casinha modesta
Que não se atavie, em festa,
N'estas noites, a brilhar:
Não se recordam tristezas...
Estalam bichas chinezas,
Estouram foguetes no ar.
Fogos alegres, pistolas,
Bombas! ao som das violas,
Ardei! cantae ! crepitae!
Num largo e claro sorriso,
Seja a terra um paraiso!
Folgae, creanças, folgae!

Côro das creanças :

Ahi vem Julho, o mez do frio.
Vamos os corpos aquecer,
Accelerando o rodopio...
— Póde outro mez apparecer!

Julho

Julho:

Mais curtos são os dias...
As noites são mais frias,
E custam a passar...
Que commodo o descanço,
Na calma, no remanso,
Na placidez do lar...
Que paz, e que franqueza,
Quando, ao redor da meza,
A luz do lampião,
A gente se congrega,
E ao jubilo se entrega
De doce communhão!
Amigos, estudemos!
E esta estação saudemos
Bondosa, que nos traz
As longas noites calmas
Que dão ás nossas almas
O Amor, o Estudo e a Paz!

Côro das creanças :

O mez de julho occulta o rosto.
O seu encanto se desfez...
Entre na roda o mez de agosto!
Entre na dansa o oitavo mez!

Agosto

Agosto :

Com as chuvas derradeiras,
Molham-se as verdes palmeiras
E os canteiros do jardim.
Já que o tempo não melhora,
Deixemos em paz lá fora
O balanço e o trampolim...
Depois das lições, abramos
Livros de contos; leiamos
As ardentes narrações
De aventuras, de viagens
Por inhospitas paragens
E por selvagens sertões...
— De explorações arrojadas
Feitas em zonas geladas,
Em zonas de vivos soes;
E percorramos a Historia,
Honrando e amando a memoria
Dos justos e dos heroes!

Côro das creanças :

Fugiu Agosto! Pede entrada
Um novo mez que nos vae dar
A Primavera perfumada!
E o nono mez que vae entrar!

Setembro

Setembro :

Eu trago a primavera;
Trago a aprazivel era
De universaes festins;
Mais bellas, mais viçosas,
Surgem sorrindo as rosas
E as dhalias nos jardins.
Sou o jovial setembro!
E aos brasileiros lembro
A data sem rival,
Em que o Brasil potente,
Ficou independente
Do velho Portugal.
As vozes elevemos
Em hymnos, e beijemos
O pavilhão gentil,
Que no seu lemma encerra
O ideal da nossa terra,
A gloria do Brasil!

Côro das creanças :

Adeus, setembro! Já descubro,
Cheio de flores, a cantar,
Lepido e alegre, o mez de Outubro.
Que em nossa roda quer entrar!

Outubro

Outubro :

Foi neste mez que, por mares
Cheios de nevoas e azares,
Christovam Colombo viu
Um novo e esplendido Mundo
Surgir do Oceano profundo...
E a America descobriu.
As intrigas, os perigos,
A inveja dos inimigos
Não o puderam vencer:
Viu passarem as procellas
Sobre as suas caravellas,
Sem a esperança perder.
Gloria ao Genio destemido,
Que navegou conduzido
Pela sua intrepidez!
Ergamos a voz em festas
Aquelle que estas florestas
Viu pela primeira vez!

Côro das creanças:

Um outro mez já pede entrada :
Deixem-n'o entrar, que é sua vez!
Em nossa roda bem formada,
Entre cantando um outro mez!

Novembro

Novembro :

Neste mez, compremos ramos
De bellas flores, e vamos
Aos cemiterios orar!
Só pode ser bom na vida
Quem, com alma commovida,
Sabe os mortos respeitar.
Visitemos os finados,
— Aquelles, que, descançados,
Dormem o somno final!
— Mas, logo depois, cantemos!
E com hymnos celebremos
Nossa data nacional!
Patria que todos amamos!
Aos teus pés depositamos
Saudações e flores mil!
Sempre sobre a tua historia
Fulgure a estrella da Gloria!
Deus engrandeça o Brasil!

Côro das creanças :

Dansae, dansae mais vivamente!
Saia Novembro, e entre, a cantar,
O mez querido que, contente,
As ferias vem annunciar!

Dezembro

Dezembro :

Deixemos as cousas serias!
Sou o bello mez das Ferias,
O bello mez do Natal!
Creanças! tendes saudade
Da casa, da liberdade,
Do carinho maternal?
Sou o bello mez da Infancia!
— Quem trabalhou com constancia,
Debalde não trabalhou :
As aulas estão suspensas;
Tem premios e recompensas
Todo aquelle que estudou.
Quem estudou, finalmente,
Recebe a paga, contente,
Do sacrificio que fez...
— Ferias, collegios fechados
E livros abandonados!...
Eu sou das Ferias o mez!

Côro das creanças:

Inda uma vez dansemos rindo!
Vamos ás casas regressar...
O anno acabou! Dezembro é findo!
Vamos agora descansar!